Para uma parte daqueles que estão entrando no mercado do trabalho o futuro é agora. Uma modificação importante no modo como as empresas pensam começou a tomar forma em meados da década de 1990 no país e, com o aumento do acesso às tecnologias da informação e comunicação (as chamadas TICs), o mundo do trabalho começou a ficar cada vez mais flexível em formas e horários. O contraponto é que essa mesma flexibilização modificou o modo como se pensava as carreiras. Ao invés de planos para muitos anos frequentemente orientados pela estrutura das organizações, como ocorria anos atrás, atualmente as pessoas precisam, no momento em que se inserem no mercado de trabalho, traçar seus próprios caminhos, cada vez mais sujeitos a alterações de rotas.
Historicamente os modelos de trabalho passaram por três grandes alterações no seu modo produtivo (e por diversas outras não menos importantes, mas originárias desses grandes pontos de inflexão). O primeiro foi quando os indivíduos começaram a trocar suas horas de trabalho por uma remuneração fixa dentro de um processo organizado de produção. Dessa forma surgiu o trabalhador como conhecemos.
A segunda grande mudança foi a transição da manufatura para o modo industrial de produção, ou seja, quando aquele que era responsável por todo o processo de uma determinada atividade – realizada do começo ao fim por uma pessoa – se tornou um operador de maquinário e, portanto, só tinha controle de uma parte do processo da produção (fosse um bem de consumo ou um serviço). O modelo fordista – de linhas de produção – é a principal herança dessa segunda fase.
“E mais atualmente temos uma mudança radical no processo fordista de organização da produção e do trabalho que sofreu uma grande reestruturação”, explica Marcos Cordiolli, pesquisador da área de educação e qualificação profissional e consultor pedagógico na área de educação corporativa.
Para Cordiolli essa reestruturação passa pela maior flexibilização dos horários de trabalho – importantíssimo no estilo fordista de produção e substituído por metas a serem cumpridas – , pela flexibilização do local físico comum de trabalho – o escritório deixa de ser importante para que o trabalho continue sendo executado – e pela potencialização desses dois itens anteriores pela intensa adoção das TICs.
“O local de trabalho pode ser ainda a base de várias atividades cotidianas profissionais, mas com o computador, celular, email, tablets o trabalhador pode realizar trabalhos diversos outros lugares, e enviar o produto em meio digital pela Internet , é possível acessar informações necessárias para uma tomada de decisão ou participar de uma reunião on line de onde estiver . A parte boa é que não é necessário ficar o tempo todo em um espaço determinado de trabalho. A ruim é que os afazeres profissionais também não ficam nesse espaço de trabalho: eles vão onde o profissional estiver. Acabam os limites impostos pelo horário de trabalho e o horário de lazer e da família, por exemplo”, explica Cordiolli.
A era das incertezas profissionais
O estilo fordista de organização do trabalho é o retrato fiel do trabalho do século XX. Havia horário para entrar e para sair, uniformes que distinguiam alguns trabalhadores de outros e havia departamentos específicos, com profissionais especializados em uma atividade trabalhando em cada um deles. As empresas possuíam diversos níveis hierárquicos e tinham planos de carreiras claros. Para chegar à gerência, por exemplo, o caminho estava dado: as qualificações exigidas eram públicas, as competências e os cursos necessários para adquirí-las também.
Bastava seguir à risca o plano e muito provavelmente em um tempo esperado se chegaria ao cargo dos sonhos. Havia estabilidade no emprego e era comum um profissional passar a vida toda na mesma corporação. Também não era de bom tom ter muitos registros na carteira de trabalho: isso podia ser indicativo de falta de comprometimento. Atualmente o ideal é justamente o inverso, pois indica que o profissional segue seu próprio plano de carreira.
No Brasil, quando houve uma abertura abrupta do mercado nacional para as importações e para a instalação de novas empresas estrangeiras, no início da década de 1990, os problemas de produtividade e qualidade gerenciais das corporações nacionais ficaram muito claros.
A competitividade se acirrou repentinamente e foi necessário rever todos os processos dentro das empresas, para torná-las mais ágeis nas respostas ao mercado. A primeira coisa a fazer foi diminuir os níveis hierárquicos – para acelerar o processo de tomada de decisão. Além disso, as empresas ficaram mais focadas nas suas especialidades e, consequentemente, passaram a terceirizar tudo o que não fizesse parte da suas competências essenciais. Essas subcontratações deram origem a uma onda de criação de diversas outras pequenas e micro empresas, muitas delas constituídas de apenas um profissional (recentemente rebatizados de freelancers).
Hoje as empresas têm que demonstrar grande agilidade e capacidade de adaptação para sobreviver no mercado. Isso exige profissionais que se adaptem rapidamente também. E, dentro desse novo modelo, as pessoas não podem mais organizar sua vida – pensar em aposentadoria, por exemplo – dentro de uma corporação, pois não há garantias e, consequentemente, não há um plano de carreira claro. O profissional valorizado é aquele que traz a experiência consolidada – adquirida em outras empresas ou nas especializações que ele escolheu cursar – e que vai ser útil para a empresa em determinado momento, mas, assim que a ‘maré mudar’, tem que estar pronto para voltar ao mercado sem grandes problemas. É a era dos “Indivíduos S/A”.
Trabalhar com foco em seus próprios interesses
“Nesse sentido os indivíduos começam a construir carreiras mais autônomas e focadas nos seus próprios interesses. Não se pode mais colocar nas mãos das empresas as responsabilidades de gerenciar sua vida no trabalho”, explica Iúri Novaes Luna, pesquisador do Núcleo de Pesquisa Trabalho e Subjetividade (NPTS) da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).
Isso também quer dizer que as profissões não são mais estanques. Um profissional pode ter que se adaptar a novas realidades de tempos em tempos. Os departamentos dentro das empresas modernas podem se modificar e esses trabalhadores terão que se adaptar aos novos desafios propostos ou então procurar novos caminhos. “É aí que ser um profissional multidisciplinar é importante”, explica Cordiolli. “Quanto mais generalista é a formação, maior o raio de ação desse profissional. Dessa forma o trabalhador pode assumir novas responsabilidades rapidamente, seja dentro da mesma empresa, seja em outra.”
“Esse profissional multidisciplinar ou generalista pode se adaptar para trabalhar em várias áreas e resolver problemas diferentes. Mas também é preciso não deixar de lado as formações específicas. Não basta ser um ou outro: quem está se preparando para o mercado de trabalho atual precisa estar atento a essas duas facetas da sua formação”, diz Novaes Luna.
Faculdade, especialização, pós-graduação…
E quem está em um curso superior precisa se conformar: entre a entrada na faculdade e o final dela o mercado irá mudar e a profissão que você escolher já terá novidades que você não estudou. Portanto a especialização ou uma pós-graduação são caminhos naturais.
“É cada vez mais comum que os alunos saiam da faculdade com uma pós-graduação em mente. Isso porque a pós está tendo o papel de redirecionar ou reforçar as carreiras escolhidas pelos jovens profissionais. A faculdade garante uma ‘âncora’ no mercado imediato – e ganhos econômicos iniciais –, mas outras qualificações são necessárias para garantir uma carreira profissional no longo prazo”, explica Cordiolli.
Há também uma necessidade cada vez maior, pontua o pesquisador, de uma formação que não passa pelas instituições de ensino. Uma boa formação cultural é cada vez mais valorizada em candidatos a novos empregos. “Ler, ir ao teatro, ler o jornal diariamente são decisivos em um mundo onde as mídias sociais – uma nova TIC – têm um papel cada vez maior. Tudo que auxilie na socialização com outras pessoas é importante”, completa.
Coaching, mentoring e a importância da orientação profissional constante
Com tantas responsabilidades assumidas pelos trabalhadores, uma característica necessária para enfrentar o mercado de trabalho atual é uma postura empreendedora ativa. Afinal, não há mais departamentos de recursos humanos que indiquem o que fazer. A autonomia sobre o que fazer e as decisões sobre a própria carreira são do profissional.
Não à toa é cada vez mais comum a figura do orientador profissional (que muitos alunos, que cursam o final do ensino médio, conhecem bem). Já a orientação profissional de um indivíduo já inserido no mercado de trabalho é chamada de coaching ou mentoring.
“As posições profissionais são mais instáveis e esses novos trabalhadores precisam estar preparados para mudanças relativamente rápidas nas carreiras. Entretanto o ideal é não esperar pelos problemas para fazer as mudanças e não depender das empresas para organizar a própria vida. Então o coach ou mentor, os profissionais envolvidos nesse processo, são importantes para o plano pessoal e profissional nesse sentido”, diz Novaes Luna. “Não existe mais a pergunta ‘onde você imagina estar daqui a 10 anos?’, hoje em dia se pergunta sobre os planos para os dois ou três próximos anos”, brinca Cordiolli.
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Pingback: Flexibilidade e incertezas nas carreiras do futuro « ..:: Enio Rodrigo // - junho 15, 2011