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Lição apreendida com a crise da indústria fonográfica fez setor editorial se preparar para o futuro
Há dez anos nascia o Napster. Atordoados, os executivos das grandes gravadoras responderam rapidamente com processos jurídicos, tentando enterrar a ideia que ganhava adeptos em progressão geométrica. Mas não adiantou. Para horror das gravadoras, o Napster gerou filhotes e deu origem à plataforma atual de venda de músicas, como o modelo de comercialização feito via iTunes (irmão siamês do iPod). Foi o começo do fim para a indústria fonográfica como se conhecia. A indústria editorial viu, ao longe, a tempestade se formar e já está alerta.
“Aprendemos muito com a crise da indústria fonográfica. Especialmente o que não fazer” brinca Lula Vieira, diretor de marketing corporativo do grupo Ediouro. “A crise na indústria fonográfica foi avassaladora. Diante do tamanho do problema acho que o setor editorial foi até muito lento em assimilar e responder ao desafio” aponta Breno Lerner, diretor geral da editora Melhoramentos. Ainda assim, a resposta das editoras, de investir em novas plataformas de circulação e comercialização, parece que está dando resultados positivos. A aposta é na formação de novos leitores através das tecnologias de informática e comunicação. Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro, acredita que, cada vez mais gente, especialmente os jovens, descobrem a leitura por intermédio dos artefatos eletrônicos. “Daí em diante, apresentado a esse universo de prazer único que é a literatura, é difícil parar” diz Rosely. Porém, existe um problema maior ainda sem solução: “como os autores vão ser remunerados e o que vai ser feito para proteger os direitos intelectuais das obras”, ressalta.
A primeira lição apreendida na crise da indústria fonográfica foi a questão da pirataria. Para diminuir o custo de produção dos CDs, no final dos anos 1990, estes passaram a ser produzidos a um custo muito menor na China e, posteriormente, em outros países do sudeste asiático, e era desses mesmos países onde, por conta de diversos fatores, saíam as cópias piratas que chegavam a países como o Brasil por preços infinitamente menores que os originais. Já para indústria editorial, o grande vilão sempre foi a máquina fotocopiadora. Estudantes que precisavam de capítulos específicos de livros começaram a deixar de comprar a obra inteira. “Essa situação é muito evidente para nosso setor: o número de estudantes no Brasil só aumenta e a vendagem de livros técnicos ou científicos continua em declínio” diz Lerner. Para o executivo da Melhoramentos esse foi o segmento que mais sinalizou o início da crise no modelo de mercado editorial. E foi nesse setor que algumas alternativas se desenharam. Primeiro houve uma pressão por parte das editoras em fazer valer a Lei do Direito Autoral, de 1998, que restringe a reprodução das obras. Na sequência, gerar alternativas positivas e justas, para ambos os lados, do que é conhecido por “livro fracionado”. “É possível agora o professor de uma determinada disciplina, por exemplo, montar uma apostila com os capítulos que vai usar em aula e deixá-la disponível na internet para o aluno imprimir, pagando proporcionalmente pelos direitos autorais” exemplifica Lerner. O modelo gera alternativas para os professores, não onera o aluno, garante a legalidade e remunera os serviços da editora e do autor. Exemplo disso é a Biblioteca Virtual Universitária, plataforma de livros virtuais da Pearson Education editada pela Artmed (http://www.bvirtual.com.br/cont/login/Index_piloto.jsp?ID=pear). “Isso, de certa forma, é um desdobramento de uma das tendências no mercado editorial atualmente, que é o self publisher”, pondera Vieira. O termo é usado para denominar um modelo de negócio onde o autor compra um pacote de serviços de uma editora e essa se disponibiliza a criar canais de distribuição. Sites como o quase famoso Lulu (lulu.com) oferecem templates (padrões pré-formatados) de capa e diagramação, por exemplo, e comercializam em sua loja virtual. O leitor potencial pode baixar o livro ou encomendar uma cópia física (dependendo do serviço contratado), e o site fica com uma percentagem no valor das vendas. “No Brasil esse tipo de serviço ainda vai ter que ser pensado. Não temos um sistema de divulgação de literatura muito socializado, que aqui é feito via editora” diz Lerner, indicando que aqui as editoras tradicionais poderiam entrar como chancela de qualidade tanto das obras quanto dos canais de distribuição. “É uma garantia para o leitor, que vai poder ter uma prévia da qualidade do que está comprando, e do autor, que vai ter seus direitos garantidos”, acrescenta Lerner e lembra “afinal é isso que fazemos de melhor, comercializamos conteúdo”.
Editoras cada vez mais digitais
As editoras, aliás, migram na direção de se tornarem cada vez mais “armazéns digitais”. O avanço das tecnologias de impressão em baixa tiragem é a vedete, do lado das editoras. Na contabilidade do livro físico leva-se em conta um acúmulo de custos: primeiro a impressão, que quanto maior a tiragem, menor o custo unitário. Soma-se a isso o transporte, estocagem em lugar adequado e mesmo assim correndo riscos de degradação (umidade, insetos e diversos outros fatores que podem comprometer o objeto de venda) e, no pior dos casos, encalhe. “Com exceção dos best-sellers ou obras de oportunidade — que valem o investimento — agora é possível um internauta entrar no site e encomendar uma única unidade de um livro pelo mesmo valor da livraria e melhor, a editora e autor ainda lucram”, diz Vieira, da Ediouro, com ganho para o meio ambiente, livre do desperdício de papel.
No embalo dos audiobooks
“O carro-chefe da nossa editora não é dicionário, é a área de línguas. Não vendemos um objeto específico, comercializamos um banco de dados de conhecimento em uma determinada área. Agora, esse banco de dados pode ter muitas formas” define Lerner. Adaptado até para sistemas online, o Michaellis ganhou uma versão para o iPhone. Os celulares são outra peça importante que podem ser plataformas de distribuição de conteúdo editorial. Michael Hart, um dos pais do ebook, em entrevista recente à revista ComCiência, aposta nessa direção. O motivo é simples: celulares estão se tornando potentes computadores pessoais. E se o futuro de tudo passa pela internet, o futuro da internet passa pelos celulares. Além do exemplo do Michaellis, e de iniciativas relativas a ebooks e downloads de arquivos, outro caminho que pode render frutos às editoras são os audiobooks.
O mercado de audiobooks, já maduro nos EUA e Europa, começa agora a ser explorado no Brasil. O público é promissor, formado tanto por pessoas e profissionais com pouco tempo, que podem ouvi-los no carro entre os afazeres diários, ou a geração multitask, a juventude multitarefa que ouve enquanto conversa e navega na internet. Aqui, volta-se às lições aprendidas com a crise da indústria fonográfica, que sofreu com a troca de arquivos mp3, nascidos gratuitos e imediatamente demonizados pelas gravadoras, que nada fizeram para diminuir os preços das cópias físicas e valorizar a posse de um objeto original. “Apostamos nos preços baixos para revalorizar a posse” afirma Cristina Albuquerque, diretora do selo Plugme que comercializa os audiolivros na forma física (CD) e em arquivos de MP3 para download. Cristina exemplifica que os ringtones (chamadas de aviso do celular, febre entre os jovens) custam em média R$ 4, por arquivos de no máximo três minutos, e “nossos audiobooks para download podem chegar a R$ 9,90 por várias horas ou mais de leitura”. É o caso de Vale tudo, biografia de Tim Maia narrado pelo próprio autor, o escritor Nelson Motta. Os CDs têm um preço maior, mas muitos são narrados por grande atores, como Irene Ravache ou Paulo Betti. O formato abre novas possibilidades para outras áreas da indústria cultural e tem impacto sobre os escritores também. Alguns, chegam a repensar sua maneira de escrever ao se depararem com a versão oral da própria obra, diz Cristina.
Editado por Germana Barata
Publicado em Revista Conhecimento e Inovação
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Dia 9 de setembro é a data oficial para conscientizar mídia e população para os problemas de uma síndrome que atinge quase 3 milhões de brasileiros, especialmente criança
Uma síndrome de mil nomes. Poucos deles com algo que possa identificar algo positivo. No antigo Egito, os hieróglifos sugerem um castigo divino infligido ao homem. Na Grécia, ao contrário, os pacientes com epilepsia eram tidos, durante algum tempo, como sagrados e levados aos templos. Mais tarde, de acordo com Rafael Bruno Neto, neurocientista da Universidade Estadual de Maringá (UEM), atribui-se ao próprio Hipócrates – tido como o “fundador da medicina” – descrever a doença em um dos livros da escola hipocrática intitulado Da doença sagrada, dissociando-a do fato de ser boa ou má, mas simplesmente uma doença tratável com dietas e remédios. Mesmo após a descrição mais cética de Hipócrates, a síndrome epiléptica – condição neurológica crônica que atinge atualmente cerca de 3 milhões de brasileiros – na história ocidental, foi se associando cada vez mais à ideia de negatividade.
“A superstição e o estigma continuaram rondando a epilepsia pelos dois milênios seguintes”, diz Bruno Neto, que é professor do Departamento de Ciências Morfológicas da UEM, ao se referir à descrição de Hipócrates. “Por séculos, a epilepsia foi considerada consequência da possessão de deuses e demônios, levando ao isolamento social os indivíduos com epilepsia e, em muitos casos, ao isolamento da família do paciente também. Em algumas culturas, as pessoas com epilepsia eram isoladas das demais na sociedade, para prevenir a ‘propagação’ da doença”, completa o pesquisador.
Marleide de Mota Gomes, do Programa de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta também para a perseguição promovida pela Santa Inquisição, na Idade Média. “Em 1494, foi lançado o manual de caçar bruxas. Nesse tratado, a presença de crises epilépticas era uma característica da feitiçaria”, diz a pesquisadora. Além disso, Marleide lembra que a terapêutica, para o que era descrito como um “mal obscuro” até o período renascentista, passou por diversas tentativas mal sucedidas, e muitas vezes cruéis, de cura para o que era considerado uma doença: consumo de sangue humano de pessoas mortas recentemente, pó de crânio, sangria do paciente, uso extremo de laxantes, indução constante do vômito, e em alguns casos, até a abertura de orifícios no crânio (a chamada trepanação craniana) da pessoa com epilepsia.
No Brasil, a primeira citação do termo epilepsia é de 1859. De acordo com Aderivaldo Ramos de Santana, da Université de Rennes, na França, é desse ano a tese apresentada pelo médico Francisco Pinheiro Guimarães na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Uma pesquisa de Santana, realizada junto à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), que analisou teses sobre o tema produzidas no Brasil entre 1859 e 1906 – data em que Ramón y Cajal e Camilo Golgi receberam o Prêmio Nobel de Medicina por terem descrito a estrutura da rede neural e seu funcionamento –, relaciona, ainda, as questões de preconceito (racial e de gênero) e propensão ligadas ao diagnóstico da epilepsia: a condição era associada a um grupo social determinado (negros e escravos) ou ainda à condição feminina, tida como duplamente discriminada – pelo gênero e pela doença – já que além de ser considerada inferior, a mulher era também tida como especialmente sujeita à epilepsia e transmissora de um “grande mal”.
Todas essas pesquisas mostram como a condição da pessoa com epilepsia é estigmatizada (carregada de preconceitos), e esse estigma transpassa diversas culturas, esbarra na religião e traz no seu cerne a discriminação, pura e simples.
Crianças à mercê do estigma na escola
A epilepsia é uma condição neurológica: constitui-se a partir de um conjunto de quadros clínicos (condição tratável e controlável através de drogas e, em último caso, cirurgia), ao contrário da doença que é um condição específica (e para qual busca-se a cura).
“A epilepsia atinge todas as idades, raças, classes sociais e países”, diz Paula Teixeira Fernandes, pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e presidente da Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia (Aspe). “Os pacientes com epilepsia sofrem com os comportamentos exibidos pela sociedade, pois muitas vezes, as crises inesperadas e imprevisíveis assustam quem não conhece o que é epilepsia, especialmente em ambientes sociais, como a escola, no caso das crianças”, diz Paula, que realizou uma pesquisa de percepção de estigma da epilepsia com professores do ensino fundamental, cujos dados – dentre outros coletados – foram usados para balizar a campanha “Epilepsia Fora das Sombras” (a versão brasileira de uma campanha global, da qual a Aspe é executora oficial).
“Por ser uma condição neurológica crônica muito comum na infância, a epilepsia acarreta um profundo impacto na qualidade de vida, influenciando não só o comportamento da criança e de seus pais, mas também as relações sociais e escolares”, aponta Paula. A epilepsia possui alta prevalência em crianças, o que acontece devido ao fato das crianças possuírem o sistema nervoso em processo de desenvolvimento, estando mais sujeitas a infecções, traumas, constituindo assim, um grupo mais suscetível à epilepsia.
Naquela pesquisa, ficou latente o despreparo dos professores para lidar com a questão da epilepsia entre os alunos, por exemplo, apesar de um certo grau de conhecimento da doença e de como tratar as crises. Os professores correspondem a um grupo de profissionais instruídos e, muitas vezes, eles são “modelos” para as crianças e exercem uma influência significativa sobre as mesmas. Deveriam, portanto, possuir conhecimentos e atitudes adequadas sobre a epilepsia, minimizando os efeitos do estigma associado.
Mesmo assim, aproximadamente 65% dos professores que consideraram seus conhecimentos suficientes mostraram, através dos questionários, que existiam algumas lacunas nessas informações, como crenças e preconceitos. No que diz respeito às crenças, algumas ainda persistem na área educacional: o medo de que a criança possa engolir a língua durante a crise e o medo da criança com epilepsia apresentar uma doença mental futura. Alguns professores indicaram até mesmo a necessidade de encaminhamento dessas crianças para classes especiais (reafirmando o preconceito e a necessidade do isolamento).
Tirando a epilepsia das “sombras”
Desde 2003, o trabalho realizado pela Aspe em Campinas (SP) tenta aproximar pessoas com epilepsia, associações e iniciativas pública e privada para tratar o tema e sensibilizar a mídia e a população sobre o duplo problema causado pela epilepsia: o estigma e a falta de informação sobre os tratamentos disponíveis. A partir do 1º Encontro Nacional de Pacientes e Grupos de Pacientes com Epilepsia, as primeiras 11 associações brasileiras de pessoas com epilepsia no Brasil se encontraram e iniciaram uma ação conjunta para tratar do tema.
Dessa reunião, formou-se um grupo de trabalho que iniciou uma jornada para oficializar o dia 9 de setembro como Dia Nacional de Epilepsia (a data que coincide com o Dia Latino Americano de Epilepsia) e, mais tarde, a Semana Nacional de Epilepsia, que se propõe a pôr em evidência os vários problemas enfrentados pelas pessoas com epilepsia e as diversas iniciativas para tratar o problema nos mais diversos âmbitos (psicológico, social, médico, além das pesquisas desenvolvidas na área). Nesse último item, o CInAPCe – um projeto multicêntrico da Fapesp envolvendo diversos centros de pesquisa em neurologia nas Faculdades de Medicina da Unicamp, USP e Unifesp – vem contribuindo, ao focar o problema e disponibilizar pesquisadores e equipamentos para pesquisas na área.
Além disso, a Aspe e diversas associações brasileiras lutam para a aprovação, junto ao Ministério da Saúde, de uma minuta que institui um programa para o tratamento da epilepsia na rede básica de saúde.
Editado por Rodrigo Cunha
Publicado originalmente em cinapce.com.br e oqueeutenho.uol.com.br
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A mostra virtual “Not a cough in a carload” (algo como “Nenhuma tosse por pacote”) organizada pela Stanford School of Medicine (EUA), faz um passeio pelas publicidades de cigarro antigas. O resultado é um retrato aterrador do cinismo e da irresponsabilidade das empresas de tabaco americanas na criação de um discurso de convencimento dos consumidores através de peças publicitárias que muitas vezes se apropriavam da pseudo-ciência.
A estratégia era um contra-ataque às críticas feitas ao cigarro como causadores de doenças diversas. Contratar estrelas de Hollywood, cantores e atletas de elite como fiadores da qualidade do cigarro vendido era uma das tentavias de ligar o hábito de fumar ao glamour e à vitória. Além disso médicos e especialistas – inclusive cientistas – eram convidados a darem depoimentos sobre os sabores dos variados tipos de tabaco.
A intenção da exposição online é mostrar – principalmente através das imagens publicitárias – como a indústria do tabaco, entre a década de 20 e 50, teria usado e abusado de falsos relatórios médicos e pesquisas para mostrar ao público a segurança de seus produtos. Além disso, uma pesquisa feita pela universidade mostra como os publicitários da época tentavam esconder fatos como o decréscimo da expectativa de vida de um fumante (em média 8 anos a menos que não-fumantes) ou até mesmo associando marcas a garotos-propaganda pouco ortodóxicos, como mascotes que se aproximavam do desenho animado (a exemplo de Joe Camell).
A mostra está disponível em http://lane.stanford.edu/tobacco/index.html
por Enio Rodrigo
Colaboração para Portal “O que eu tenho?”
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“Sonhei com Nossa Senhora Aparecida e ela me mostrou um vidro de remédio para a maleita. Graças a Deus minha filha melhorou”. O depoimento, em tom emocional e testemunhal, é de uma dona-de-casa do interior maranhense e faz parte do texto publicitário para o Tônico Capivarol divulgado no Almanack Capivarol de 1933. Ali, outras opções para a cura de várias enfermidades, contida em um pote de unguento, disputava espaço com receitas de “bolinho de chuva” e orações, além do calendário lunar (essencial para uma boa pesca e para o plantio). Os almanaques, periódicos tão populares em boa parte do século passado e conhecidos, em geral, pelo nome do fabricante que os patrocinava — como o almanaque do Biotônico Fontoura — eram livretos ilustrados com uma infinidade de dicas do saber popular que viajavam todo o país, nas rotas de distribuição dos caixeiros-viajantes especializados em vender lotes de remédios para boticas e farmácias, se constituindo em uma das poucas publicações disponíveis em várias cidades do interior do Brasil. Em grande parte das localidades, antecederam a chegada de jornais e revistas de grande circulação, uma vez que bancas de jornal eram praticamente inexistentes na época. As edições anuais ou semestrais desses almanaques eram aguardadas com ansiedade pelos clientes das boticas e, em algumas regiões carentes, substituíam as cartilhas escolares, contribuindo até mesmo para a iniciação do hábito de leitura, devido a seus textos de fácil assimilação.
“O Almanaque de Bristol era outro que era uma sensação. Começou a circular no Rio de Janeiro por volta de 1873, era distribuído nas capitais do país, em várias cidades do Sudeste e Nordeste e chegava a dez cidades do interior do Maranhão. Acho que nem o telégrafo chegava nessas cidades”, brinca Mário Luiz Gomes, dono de uma das maiores coleções particulares de almanaques ilustrados do país, cerca de 350 exemplares de diversos almanaques, que restaram dos milhões distribuídos entre o final do século XIX e a década de 40 do século XX, período em que as grandes revistas começam a circular em peso e os almanaques vão perdendo popularidade. “Esses almanaques são um prato cheio para observar a história da ciência no Brasil: começam com um discurso quase inventado sobre ciência, mostram o início da indústria farmacêutica — das grandes indústrias às ‘fabriquetas’ de fundo de quintal — com anúncios de remédios, alguns com fórmulas risíveis. Depois, aos poucos, evoluem seu discurso científico se apropriando de termos mais técnicos. As matérias com tônicas puramente médicas ficavam em segundo plano”, afirma Gomes. A grande maioria dos assuntos, dizia respeito à família e, a partir disso, falava-se de saúde. Os anúncios e matérias versavam sobre a saúde do bebê, por exemplo, ou sobre soluções para os “humores do casal”, observa o pesquisador.
Os almanaques acabam por ilustrar o crescimento e posterior boom da indústria farmacêutica no Brasil nas décadas de 1920 e 1930, devido ao aumento substancial das publicidades encartadas em suas páginas, evidenciando, ainda, o total descontrole das autoridades na época sobre o que era produzido. “O discurso de venda desses produtos artesanais e sem comprovação científica de seus benefícios — tais como: ‘tão bom que foi autorizado pelo Junta de Higiene do Rio de Janeiro em apenas 10 dias’ — não tinha base legal, geralmente nem sequer tinham a tal autorização, nem princípio ativo algum, apenas discursos de convencimento”, exemplifica Gomes.
A análise desses anúncios mostra, ainda, a introdução dos hábitos de higiene no Brasil, utilizando um discurso com tom sensual, e as preocupações que rondavam a população na época (como casais de “enamorados” preocupados com a sífilis ou com a tuberculose). Aos poucos, a questão técnica também evolui. Os anúncios ganham grande profissionalismo com os artistas gráficos, pois a impressão de fotografias ainda era um processo complexo para as rotativas rudimentares de então. Nomes como Belmonte, J. Carlos, Franz Kohout, entre outros, alguns vindos principalmente das companhias de publicidade de bondes, um dos maiores veículos de publicidade outdoor na época, ilustravam tais anúncios . “Eram grandes ilustradores e deram uma contribuição enorme para a história da publicidade no Brasil. Como era difícil produzir ou reproduzir uma fotografia, esses artistas criavam lindos anúncios, romantizados, coloridos, bem tropicalizados eu diria” afirma Juvenal Azevedo, publicitário e jornalista que começou sua carreira na Standart, uma das primeiras agências profissionais do Brasil, no final da década de 1950.
Azevedo explica que, na época, também era difícil um anúncio (as campanhas publicitárias ainda nem existiam) ter um briefing, ou seja, uma reunião entre os profissionais envolvidos e o cliente para definir caminhos, posicionamentos, escrever um texto com informações responsáveis, etc. “Era uma coisa mais do tipo ‘faça um desenho bonito para estampar na revista’ ou ‘crie uma musiquinha para veicular na rádio’”, diz Azevedo. “Era emocional e totalmente irresponsável, não havia controle”, completa. Data dessa época, também, textos clássicos, como o de Monteiro Lobato para o Akilostomina Fontoura, do mesmo laboratório do Biotônico, onde a figura do Jeca Tatu recebe diagnóstico de “amarelão” em um anúncio patrocinado pelo laboratório. Menotti del Picchia, em 1936, também se aventurou a escrever para o Almanach da Rhodia, em uma época onde os limites entre publicidade, jornalismo, informação e fantasia ainda não eram nítidos.
DISCURSO DA QUÍMICA INDUSTRIAL Aos poucos, começam a aparecer outros discursos também, como o do progresso industrial e da saúde do trabalhador. “É possível notar a desqualificação do que é natural em detrimento ao industrializado. Convoca o consumidor a parar de tomar chá para a digestão — mesmo os industrializados — e dá soluções mais ‘modernas’, como os produtos sintetizados pela indústria química”, observa Gomes. Entre os assuntos principais, dessa época, chama a atenção os relativos à saúde das crianças. “Na época, a mortalidade infantil era muito alta, então as publicidades de medicamentos para o apetite, vitaminas, remédios para vermes, etc, apareciam em grande quantidade” afirma Olga Brites, professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Nesse período, que vai de 1930 a 1950, consolidam-se as revistas de grande circulação como O Cruzeiro,Revista da Vida Doméstica e Seleções do Reader’s Digest”, afirma Olga, citando publicações que dedicavam espaço para os temas relativos à saúde.
A historiadora também assinala como os textos publicitários dialogam com o momento histórico, que era a industrialização do país. Os anúncios conclamam as mães a cuidarem de seus filhos através de alimentação saudável — conservando os alimentos em papel alumínio e usando a geladeira para acondicioná-los — e a cuidar dos machucados causados por acidentes domésticos — usando antissépticos mais eficientes que receitas caseiras ou um moderníssimo Band-Aid, um curativo que vinha pronto e enfatizava o fato de ser feito em plástico no seu discurso de persuasão. Também indicam o início da independência feminina e da inserção da mulher no mercado de trabalho, onde o leite em pó “com os mesmos nutrientes do leite materno” e a papinha industrializada facilitam o dia-a-dia, além do maquinário tecnológico (“fruto da ciência”) que facilita as tarefas domésticas.
Da mesma forma, a propaganda conclama a mulher a ficar atenta à saúde do marido. “Anúncios relativos a novidades na medicina eram direcionadas ou se articulavam através da figura feminina” diz a pesquisadora. Já para a figura masculina, a saúde e a ciência se traduz através das curas para o cansaço do trabalho, de remédios para azia e má digestão (a palavra stress ainda não tinha entrado na moda), dos instrumentos de precisão e dos novos máquinários tecnológicos, sinônimos de progresso. “É uma época onde o sujeito estava submetido à máquina, onde há uma grande tensão entre os trabalhadores e a sociedade industrializada, que preza a hierarquia, o avanço, a racionalização do tempo e das coisas e onde o trabalhador não pode ficar doente e, se ficar, precisa de uma cura rápida. Essa rapidez é moderna e a indústria vai providenciar essa cura também, na mesma rapidez”, pontua Olga.
..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..
* publicado originalmente em Ciência e Cultura
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O diálogo entre arte e ciência mais antigo está presente nas ilustrações de relatos científicos feitos por viajantes, navegadores e pesquisadores. Exemplos famosos são os desenhos de Leonardo Da Vinci da anatomia humana e os de naturalistas e pintores que percorreram o mundo em grandes navegações exploratórias, registrando esboços de animais e plantas, como os botânicos Carl Friedrich Philipp von Martius e Eugen Warming. “O desenho é uma linguagem universal que, frequentemente, dispensa o texto descritivo e a oralidade para explicar os objetos; a ilustração científica, portanto, funciona como ferramenta de apoio à imaginação para explicar ciência”, afirma Diane Carneiro, professora da área de ilustração científica do Centro de Ilustração Botânica do Paraná (CIBP).
“Com poucas exceções, os grandes cientistas são pensadores visuais, no sentido de que visualizam suas ideias antes de expô-las na forma de palavras”, enfatiza Alberto Cairo, ex-editor de infografia do jornal El Mundo e professor de infografia e multimídia da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA. Para ele, uma tradição prejudicial na cultura ocidental fomentou o conceito de que o pensamento é um processo exclusivamente verbal, quando as palavras não são mais que um meio de codificação de informação, como as imagens. “Pense também na única ilustração no livro A origem das espécies de [Charles] Darwin, que se conhece como a ‘árvore da vida’. Essa imagem é central em seu pensamento”, recorda. Para Cairo, hoje qualquer cientista usa imagens como um meio confiável de codificar informação. Os bons diagramas ajudam o pensamento porque revelam padrões nos dados, mostram múltiplas variáveis, ao mesmo tempo, permitem ver objetos ocultos e compreender melhor as conexões entre fenômenos e sujeitos.
O conceito de ilustração científica vai além do desenho e da pintura. Da mesma forma que a fotografia e a ilustração se diferem por seus objetivos, mapas, diagramas, gráficos e infográficos também são artifícios que evidenciam diferentes informações e dados e que auxiliam a ter uma visão mais ampla da problemática apresentada por um discurso científico, em qualquer nível. “Quando se utiliza analogias em forma de imagem, a tendência é romper a barreira inicial que se poderia ter com um tema científico, digamos”, explica Tattiana Teixeira, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Linguagens do Jornalismo.
ARTE NA CIÊNCIA? “A ilustração científica não é arte e vice-versa”, sentencia Tattiana. Opinião similar tem Sílvia Di Marco, pesquisadora associada ao projeto “A imagem na ciência e na arte”, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “A ciência sempre usou imagens para pensar, comunicar entre pares, ensinar e, em geral, não tem preocupação nenhuma com a arte, embora haja casos nos quais é evidente a influência dos padrões estéticos dominantes de uma época dentro das representações científicas”, avalia. Em sua análise, normalmente a arte se preocupa com a ciência mais do que os cientistas se preocupam com a arte. Uma boa imagem para a ciência é aquela considerada inteligível, o que deixa a preocupação estética em segundo plano.
James Elkin, professor da Escola de Artes da Universidade de Chicago, EUA, é mais cauteloso e acredita ser necessário resistir à conclusão de que essas imagens sejam única e exclusivamente informacionais e sem qualquer valor estético. Em artigo publicado no The Art Bulletin (vol. 77, n. 4, 1995) ele argumenta que se fosse possível ampliar os estudos em história da arte sobre o campo das imagens não artísticas, haveria a possibilidade de se criar uma história própria para cada um desses campos, em especial dentro das áreas científicas. “A história das imagens na cristalografia, astronomia e microscopia poderiam ser escritas do início”, reforça.
IMAGEM E SIGNIFICADO “Hoje, qualquer manual educativo está cheio de imagens, diagramas, esquemas, mapas, gráficos estatísticos, etc”. Cairo acrescenta que tais recursos não são meros desenhos. “Cada tipo de dado corresponde a um jeito adequado de codificação. Os mecanismos mentais que facilitam a compreensão de diagramas (como mapas) já são inatos nas gerações atuais. E temos mais possibilidades de escritas diagramáticas, o que evidencia existir outras formas mais adequadas para transmitir determinadas informações”, finaliza.
A contribuição das imagens para a medicina, por exemplo, é inquestionável, assim como a infografia é uma forma de narrativa que vai além da apresentação pura e simples de dados, criando narrativas tão complexas quanto um texto escrito.
Diante de múltiplas possibilidades no uso de imagens para melhorar a compreensão do pensamento Henrique Cézar da Silva e colegas analisaram como essas novas tecnologias e métodos de visualização contribuem para a imagem da ciência junto a estudantes. Em artigo publicado na revista Ciência e Educação (Vol.12, nº 2, 2006), da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os autores concluem que, na última década, o desenvolvimento de tecnologias resultou em uma brutal intensificação da quantidade de imagens constitutiva de nosso cotidiano e que, portanto, a leitura dessas precisa ser ensinada. “É importante que sejam criados espaços curriculares nos quais se possa analisar a aula como processo discursivo, discutindo o funcionamento de diferentes formas de linguagem associadas ao processo de ensino e aprendizagem”, diz Cézar da Silva.
RISCOS DO CLICHÊ Para o semiólogo italiano Omar Calabrese, professor da Universidade de Siena e autor do livro A idade neobarroca?, ao adentrar o imaginário do público leigo essas imagens poderiam cristalizar clichês e padronizações. Há o perigo da “estética da repetição”, jargão usado por Calabrese. “Lógico que isso é um perigo. Pense, por exemplo, na representação do átomo como um grupinho de planetinhas (elétrons) rodando ao redor do núcleo. Isso é um ícone que está na memória coletiva e que é muito difícil mudar”, diz Cairo. “O perigo da massificação do conhecimento, da estagnação e da acomodação dos estudantes no mínimo de conteúdos apresentados na internet existe em qualquer área; na área científica não é diferente”, concorda Fátima Zagonel, ilustradora e também vinculada ao CIBP. Mas, a pesquisadora enfatiza que é necessário criar uma cultura para orientar o uso dessa mídia, para que não ocorra a estagnação da pesquisa. O incentivo à leitura e à busca do conhecimento nas fontes originais (livros, revistas e publicações específicas) também colabora para que não ocorra a superficialidade de conteúdos e a criação de ícones (imagéticos) que levam a generalizações e interpretações “científicas” equivocadas. “O trabalho do designer ou do artista gráfico que trabalham com ilustração científica é, justamente, criar novas formas de representação, desafiar os ‘leitores’ com interpretações novas”, finaliza Alberto Cairo.
..:: Enio Rodrigo Barbosa Silva ::..
* publicado originalmente em Ciência e Cultura
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Após aproximadamente dois anos de trabalho, o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied), da Unicamp, fez um balanço das atividades desenvolvidas pelo projeto TIME (Tecnologia e Mídias Interativas na Escola), no qual dá pistas de como diminuir a distância criada pelas novas tecnologias, que parece afastar professores e alunos dentro da sala de aula. O projeto beneficia atualmente 1.300 alunos da rede pública de Hortolândia (SP), além dos professores e pais de alunos que também participam da interação com as salas multimídias instaladas em duas escolas municipais de ensino fundamental: Fernanda Graziella Resende Covre e Parque dos Pinheiros, ambas na periferia da cidade.
O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e em parceria com a prefeitura local, apostou na montagem de laboratórios de multimídia e na capacitação teórica e técnica de professores. O resultado é a aproximação de professores, alunos e comunidade – através da figura dos pais e familiares dos alunos – no desenvolvimento de trabalhos colaborativos e de inclusão digital.
“Eu tinha pavor de qualquer coisa tecnológica”, desabafa Silvana Paula de Souza, uma das professoras mais antigas do projeto. “Acabei aprendendo junto com os alunos”, completa. Para participar do projeto TIME, cada professor escreve um sub-projeto para desenvolver em sala de aula. Silvana, professora da escola Fernanda Covre, confessa que o primeiro sub-projeto que escreveu teve grande influência de sua formação em psico-pedagogia. Ao chegar em sala de aula, percebeu que a realidade dos alunos pedia outras ações que envolvessem a participação dela como facilitadora na construção de outros sentidos para as tecnologias, de uma aproximação mais humanizada com a informática e os equipamentos disponíveis. Não teve medo, rasgou o sub-projeto original e escreveu outro.
“Cheguei em uma classe com a auto-estima muito baixa e resolvi ampliar o projeto para poder me apropriar de outras ações, como teatro e fotografia, para poder desenvolver ações que permitissem aos alunos se auto-conhecerem e valorizarem suas produções”, diz a professora. Um dos primeiros exercícios que propôs foi pedir aos alunos se descreverem, e a primeira ferramenta usada no laboratório foi um editor de textos. Rapidamente, ela observou que os alunos que já sabiam usar o computador – mais da metade da classe – ou aqueles que descobriam novas funções no software se organizavam e repassavam a informação para os colegas. A professora admitiu sua dificuldade com o uso de determinados equipamentos e acabou estimulando os alunos a fazerem dela uma companheira de aprendizado.
Graças aos exercícios no editor de texto os alunos também começaram a desenvolver a prática da leitura e algumas dificuldades de alfabetização também foram deixadas para trás. Em um dos exercícios mais recentes, os alunos formaram duplas e ensinaram colegas de outras classes a fazer desenhos simples usando o software Paint. Um detalhe importante é o fato de Silvana dar aula para alunos da 2ª série do ensino básico, ou seja, crianças entre 6 e 7 anos que se auto-organizaram em um ambiente colaborativo de aprendizado, que inclui a professora como companheira e não como autoridade inflexível, e que veem sua produção se desdobrar através das mídias disponíveis no laboratório. “Começamos com produção de texto, pesquisamos informações na internet, produzimos fotografia com a máquina digital, fizemos uma história em quadrinhos usando o Paint, e agora estamos gravando um programa de rádioweb”, conta.
A mesma tática vem sendo usada por Rute Camargo, da escola Parque dos Pinheiros, uma das professoras mais novas no projeto, ao qual está integrada desde o semestre passado. Ela admite que, antes do ingresso no projeto TIME, estava na confortável posição de acomodação diante das novas tecnologias. “Eu sabia mexer com a máquina digital e fazer vídeos, mas muito pouco”, confessa. Motivada pelo fato de o projeto contar com bolsas-auxílio para o desenvolvimento dos sub-projetos, Camargo também viu uma classe com problemas de disciplina e alfabetização se organizar para nivelar os conhecimentos adquiridos ou trazidos anteriormente, além de os alunos tirarem dúvidas trazidas pela própria professora quanto à utilização de algumas funções dos equipamentos ou softwares.
“Eu tinha até mesmo medo de tocar nos equipamentos. A sala de multimídia, pra mim, era uma atividade extra-classe, que não se integrava com outras atividades”, conta. Essa distância dos alunos – também chamada de gap de geração -, que ainda é sentida por vários professores que não fazem parte do projeto, fazia com que, ao adentrar na sala multimídia, os alunos tomassem a dianteira nas atividades, tornando a sala difícil de gerenciar. “Eu tinha medo da bagunça que eles podiam fazer na sala multimídia, porque os alunos acabavam dominando a dinâmica”, afirma. Agora, professora e alunos trocam idéias. As obras a serem trabalhadas são escolhidas em conjunto e as atividades dentro da sala multimídia têm como objetivo o desenvolvimento das produções.
“Temos até um ‘combinado’ entre a gente: se eles acabarem as atividades propostas antes do tempo, podem usar os minutos finais da aula para jogos. Mas eles pedem autorização e a palavra final é minha”, completa. Além da sua mudança de comportamento em relação à informática e às tecnologias, Camargo também faz questão de apontar que o projeto estimula os professores a produzirem reflexões teóricas sobre o processo. “Acabei escrevendo um artigo para uma revista que circula na cidade e também submeti um resumo de artigo para a próxima reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)”, revela.
Esse estímulo à produção científica dos professores é um dos diferencias do projeto TIME, aproximando o professor do ensino fundamental e a universidade, trazendo dados que ajudem a analisar a atual situação da integração entre práticas pedagógicas e a informática. “O projeto prevê o desenvolvimento de atividades tanto dentro quanto fora da sala de aula, a partir de pesquisas dos alunos e seus professores, que conduzam a uma reflexão sobre os problemas da realidade, articulados aos impactos da tecnologia de informação e comunicação, e principalmente, no que se refere às suas implicações na prática pedagógica”, aponta João Vilhete D’Abreu, pesquisador do Nied e coordenador do projeto.
Outro ponto observado durante esses quase dois anos de projeto TIME foi o interesse de alguns pais nas atividades propostas nas escolas, a ponto de alguns deles pedirem para participar das aulas. “Temos que estar atentos ao efeito multiplicador desse tipo de experiência e, nesse caso, os fato de os alunos trazerem os pais para a experiência com novas mídias é o efeito direto desse processo. Além disso, contribuímos para a diminuição do isolamento que afeta as atuais gerações e as gerações de seus pais. Tudo isso faz parte do processo de fortalecimento do ensino público, que é a tônica desse projeto”, finaliza Vilhete.
blog do projeto
blog de uma das professoras
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Darwin não é novidade. Ou não era. Sua teoria é conhecida e reconhecida, mas o senhor Charles Darwin (um sisudo senhor de barbas brancas, vestido de cores dramáticas e escuras) parece ser menos familiar às pessoas. Talvez, por isso, mais que sua teoria, as muitas exposições que marcam as comemorações do seu aniversário duplo – duzentos anos de nascimento e cento e cinquenta anos de publicação da teoria evolutiva –, apostam na exibição de um jovem que deixou uma paixão para trás e se aventurou em uma viagem nada confortável ao redor do mundo. Um pesquisador que anotava, freneticamente, em pequenos cadernos, muitas informações que observava em suas andanças. Um homem, que por respeito às crenças de sua esposa, postergou ao máximo a publicação da obra que foi o ponto de inflexão sobre a origem da vida na Terra. Um Darwin que morou em uma casa modesta, para um cientista de sua envergadura, e que serviu de referência para áreas muito além da biologia, como a computação e a inteligência artificial.
“Darwin não era um gênio”, diz Carlos Lucena, e complementa, “era um pesquisador esforçado, que trabalhou duro, mas que tinha particularidades próprias relacionadas à sua personalidade, que conseguiu transformar em habilidades para serem aplicadas em sua pesquisa”. Lucena é curador do Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e um dos pesquisadores que ajudou na montagem da exposição intitulada “(R)Evolução de Darwin”. Para Lucena, que é biólogo de formação, essa é uma das facetas de Darwin mostrada ao público nas comemorações esse ano: um grande pesquisador, ao contrário dos físicos Einstein ou Newton, popularmente associados à idéia de gênios (suas teorias e soluções são complexas e resolvidas dentro de um ambiente bastante complexo para o público em geral: a matemática e a física). O desejo de humanidade em Darwin é tão latente que curiosidades sobre sua vida privada estão sendo expostas em todo o mundo. Até o livro de receitas de sua esposa, Emma Darwin, será publicado na Inglaterra, conta Lucena.
Charles Darwin vinha de uma família de livres pensadores. O próprio pai e o avô tinham essa inclinação. A herança familiar traduziu-se em um grande poder de observação e síntese. “Darwin tinha a mente aberta, uma visão de horizonte mais ampla que a maioria de seus contemporâneos”, comenta Lucena. Além disso, era uma pessoa bastante prática e aplicada. “Basta vermos a quantidade de livros de anotações que ele se dedicou a escrever em seu período de viagem no Beagle”, continua Lucena. Para ele, Darwin representa uma ciência feita de muito trabalho árduo, aberta a reinterpretações o tempo todo e que, portanto, apresentava uma visão menos reticente a guinadas imprevistas. Estas são consideradas características de Darwin cruciais para seu trabalho. “Além do tema evolução propriamente dito, é importante que as pessoas, especialmente os jovens e crianças, percebam que o conhecimento não se constrói com clique de mouse no computador. A teoria da evolução surgiu a partir de muita observação, reflexão e discussão”, completa Emílio Jeckel, diretor do Museu de Ciências da PUCRS, onde a exposição foi montada.

Os instrumentos usados por Darwin eram simples:
blocos de anotação, lupas e coleta de espécimes, além de muita observação.
“Darwin teria tudo para se tornar um personagem, um ícone. Sua história foi cheia de conquistas, contra a corrente”, avalia Thiago Carvalho, curador de outra exposição sobre o naturalista inglês, montada no Museu Caloust Gulbenkian, em Lisboa, Portugal. Carvalho destaca que Darwin apresenta em sua história aspectos comuns a outras personalidades (ou personagens) da ciência: “também Darwin foi um aluno que não se destacou muito, abandonou a medicina, odiava teologia (coisa que não era vista com bons olhos na época). Além disso, viaja o mundo em um barco bastante pequeno (algo entre 30 e 40 metros de comprimento) em uma viagem sem uma grande missão. Após sua volta, casa-se com Emma Wedgwood – considerada uma religiosa fervorosa – tem vários filhos (dez ao total) e segue com uma vida bastante modesta, transformando a sua casa em laboratório – a famosa Down House, situada na região de Kent, Inglaterra – atualmente aberta para visitação pelo English Heritage. E, de uma hora para outra, publica um livro que muda os rumos da biologia. “É difícil contar essa história de maneira chata e impessoal”, observa Carvalho. Além de tudo isso, ele sabia que sua teoria ainda precisava de ajustes e contribuições de outros cientistas, admitia suas limitações”, completa o biólogo, lembrando que tempos depois a genética deu grandes contribuições para a teoria da evolução das espécies.
O destaque para o Darwin cientista também se reflete nas escolhas de como abordar o evolucionismo. “Entre os pesquisadores o uso do termo ‘darwinismo’ já começou a ser limitado. Estamos tentando diferenciar o homem de suas teorias, evitando cada vez mais uma personificação da teoria”, diz Lacerda. Deste modo, há uma ênfase na multiplicidade da teoria evolucionista, em sua transformação e complementação, bem como um entendimento de Darwin como parte da história da ciência e produtor de idéias atemporais, capazes de vislumbrar passado e futuro. “Uma teoria tem que criar novos programas de investigação, ser fértil, e ninguém foi mais inspirador para a biologia do que Darwin – precisamente por não ser um ícone, uma personificação da área, mas um trabalhador incansável”, completa Thiago Carvalho.

Réplica do navio Beagle, a bordo do qual Charles Darwin viajou pelo mundo.
Darwin exposto
Darwin era um cientista típico da sua área na época em que viveu, sem muitos luxos e tentando vencer a barreira das distâncias para se comunicar com outros estudiosos. Muitos outros, inclusive citados por ele como importantes para a sua formação e resultados dos seus trabalhos, conviveram com ele, de alguma maneira, e tiveram papel fundamental para os avanços científicos da época. “Outro aspecto que também ‘humaniza’ a obra de Darwin é resultado da grande quantidade de cartas, diários e relatos que podem ser lidos ao mesmo tempo em que se acompanha todo o processo intelectual que resultou na formulação da teoria” afirma Jeckel. A exposição montada em Porto Alegre (RS) traz ambientações como o escritório de Darwin, por exemplo, montado no terceiro e último andar da exposição. “Desta maneira, as pessoas têm a oportunidade de acompanhar a pessoa Darwin – suas incertezas, seus dia-a-dia domésticos, seus dramas familiares e de saúde – e o cientista Darwin – suas observações, viagens, discussões com outros cientistas, livros e artigos científicos.” diz Jeckel. Nos outros dois andares da exposição estão montadas ambientações mostrando alguns dos animais que Darwin encontrou durante a viagem, uma réplica do Beagle (em escala 1:9) e uma ampla área explicando a sua teoria. Paralelo à exposição, ainda há diversas palestras ligadas ao tema e abertas ao público em geral.
Juliana Estefano, do Instituto Sangari, responsável pela exposição “Darwin”, montada em 2007 na capital paulista e, atualmente, itinerante pelo Brasil (passou por Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia e Curitiba em 2008 e está sendo negociada para ser montada em Vitória e Fortaleza em 2009), diz que a exposição trazida pelo instituto, em parceria como o Museu Americano de História Natural (American Museum of Natural History), também traz à luz essa abordagem multifacetada de Darwin. Montado em uma área de 1200m2 (maior que os 800m2 originais, pois foram acrescidos de ambientes falando de sua passagem pelo Brasil e América do Sul, por exemplo, além de espaços com animais vivos) a exposição da Sangari foi uma das maiores sobre o tema montada no país. A visão múltipla da obra de Darwin foi desenvolvida em ambientes que mostram: as visões pré-darwinianas; o trabalho do naturalista durante sua estada no Beagle e depois em sua casa em Down Hill; aspectos da teoria da evolução; e ambientes com animais onde os visitantes poderiam observar animais de várias espécies e fazer paralelos com a teoria. “Foi importante também mostrar que o trabalho de Darwin foi desenvolvido com ferramentas simples haviam réplicas expostas como uma lupa, papel e lápis”, diz Estefano. Além disso, há também um documentário produzido pelo tataraneto de Darwin, Randal Keynes, sobre o ilustre ascendente que, entre outras coisas, tinha hábitos extremamente familiares. Assim como a exposição montada na PUCRS, na do Instituto Sangari várias palestras propõe discussões em torno da teoria da evolução.

Animais expostos na exposição organizada pela Sangari:
o público é convidado a exercitar, assim como Darwin,
suas observações e fazer paralelos com a teoria apresentada.
Outra exposição ampla sobre o naturalista inglês foi a “Darwin BIG idea, BIG exibition” montada na Inglaterra pelo Museu de História Natural de Londres e que termina dia 19 de abril próximo. Auto intitulada “A maior exibição sobre Charles Darwin de todos os tempos”, foi organizada em colaboração com o Museu Americano de História Natural (Nova York, EUA), o Museu da Ciência (Boston, EUA), o Museu Field (Chicago, EUA) e o Museu Real de Ontario (Toronto, Canadá). Além dos ambientes já citados nas exposições acima, a mostra em Londres traz também – através de uma réplica de um antigo mostruário de esqueletos – exemplos das classificações animais pré-darwinianas que se balizavam pela crença geral na qual os animais eram exatamente iguais como na época da criação divina do mundo. A exposição montada no Museu Gulbenkian passa pelo mesmo caminho e, graças a um grande trabalho de pesquisa e de empréstimos entre museus, trouxe para exposição ilustrações da coleção de Albert Seba (zoologista holandês do século XVI) e o “Gabinete de Curiosidades” de Ole Worm, físico dinamarquês. Ambos se interessavam pelas questões da filosofia da natureza mas, ao contrário de Darwin, se contentavam em colecionar objetos e narrativas trazidas por terceiros. Galápagos também é outro ambiente importante nas exposições, pois foi onde Darwin conferiu in loco informações importantes de variações adaptativas.
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No dia 12 de fevereiro Charles Darwin faria 200 anos. Seu trabalho mais conhecido é o seminal A origem das espécies, que faz 150 anos de publicação esse ano também. Para comemorar esse período duplamente importante, chegam ao mercado editorial brasileiro diversos livros sobre o trabalho e a biografia de Darwin. O mais recente deles é o Charles Darwin: em um futuro não tão distante que teve seu lançamento pela Sangari Brasil.
Outros títulos também chegaram às livrarias ao longo de 2007, como Charles Darwin: a revolução da evolução, (Companhia das Letras), de Rebecca Stefoff com tradução de Laura Teixeira Motta, além da biografia Darwin, a vida de um evolucionista atormentado (Geração Editorial), de James Moore e Adrian Desmond, com tradução de Cynthia Azevedo. Encontra-se também nas estantes A origem das espécies de Darwin – uma biografiaA expressão das emoções no homem e nos animais(Companhia das Letras) e A origem das espécies e a seleção natural (Editora Madras; Larousse/Escala; Martin Claret; Ediouro, etc). Há também a possibilidade de ser lançado, ainda este ano, outro livro de Charles Darwin e que também foi vanguarda para seu tempo, A origem do homem e a seleção sexual, de 1871. O livro, que ficou à sombra de Origem das espécies, esbarrou no conservadorismo e no machismo da era vitoriana que não aceitava a possibilidade da fêmea ser responsável pela escolha do parceiro. (Editora Gradiva), de Janet Browne. Para quem quiser ir fundo nas obras originais pode optar pelas reedições atualizadas de
Há ainda lançamentos que tratam da teoria de Charles Darwin com o viés religioso. Entre eles O anjo de Darwin (Imago), Darwin e Kardec: um diálogo possível (Editora Allan Kardec) e Deus ou Darwin (Reino Editorial). “A teoria da evolução traz consigo uma conotação muito aversiva para certas pessoas: a de que somos (apenas) animais, de que nos comportamos instintivamente, de que os valores culturais são pulsões biológicas disfarçadas, etc. E contradiz certos postulados religiosos interpretados ao pé da letra”, afirma César Ades, do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, a teoria da evolução não elimina fatores culturais, nem representa um perigo para os valores éticos.
Para os que querem beber na fonte, a obra de Darwin pode ser acessada online gratuitamente. Dentre os documentos disponíveis estão manuscritos, livros, cartas, artigos, incluindo imagens. A origem das espécies pode ser encontrada em seis edições.
Ades, que é também autor de um dos capítulos do livro do Instituto Sangari, destaca a importância das obras de Darwin e de outras que seu trabalho inspirou ou contribuiu diretamente. “Vejo o mérito das ideias de Darwin justamente na capacidade de serem reaproveitadas e modificadas em função de áreas científicas novas, a respeito das quais às vezes o próprio Darwin não tinha pensado.” Para o autor, que é psicólogo e especialista em comportamento animal, as ideias do naturalista inglês constituem uma matriz válida para a interpretação de resultados e teorias muito modernas.
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Alunos canhotos, até hoje, disputam carteiras adaptadas para poderem se sentar e escrever confortavelmente em sala de aula, mesmo com leis como o projeto 305, de 2008, que garante esse direito. Esse é o típico exemplo do que é chamado pelos designers de produto de projeto adaptado, ou seja, projetos que, muitas vezes, na fase inicial do processo (chamada de briefing), são descritos de uma maneira e na execução final precisam de uma adaptação. “É quando o cliente lembra daquele ‘detalhe simples, coisa de dez minutos’”, brinca Tomas Sniker, coordenador do curso de Design da Faculdade de Administração e Artes de Limeira (Faal). Normalmente esse curto tempo mal serve para explicar o tamanho do problema criado.
É para evitar adaptações de última hora que podem criar ambientes de exclusão que surgiu o “design universal”, “design inclusivo”, ou ainda “design acessível”, no qual os projetos de objetos, ambientes reais ou virtuais e softwares devem ser pensados para incluir o máximo de pessoas capazes de interação sem nenhuma habilidade anterior ou adaptação posterior por parte do designer ou projetista. Um projeto de design universal é reflexo da aceitação da multiplicidade do mundo atual, sem que haja estigmatização ou exclusão, em contraposição ao modelo normativo com regras e exceções. É preciso repensar, para muito além da estética, o modo de se projetar(veja resumo do processo).
“Claro que um projeto universal não é algo fácil de atingir”, continua Sniker, “aspectos como a ergonomia, que no Brasil é complicada por conta da quantidade de biotipos, e de níveis de conhecimento prévio de interação, no caso de caixas de banco ou sites de internet, são complexos e passam por outras esferas”. Uma dessas dificuldades, diz o coordenador, é a econômica. O investimento na etapa de projeto é muito maior, pois é preciso trabalhar com uma gama maior de variáveis, o que contribui para encarecer o produto, ao contrário do que costuma ocorrer com produtos adaptados. Mas, a longo prazo, entendendo a lógica de maior oferta, esses preços podem diminuir, prevalecendo os projetos de melhor qualidade.
Direito à acessibilidade
Na internet a questão da acessibilidade ganha contornos ainda mais preocupantes. No ano 2000 um cidadão australiano processou o governo por não conseguir acessar o site oficial dos Jogos Olímpicos. O usuário tinha 100% de deficiência visual e estava impedido de acessar quaisquer informações via internet deixando claro o caráter excludente da comunicação do governo com os cidadãos. Austrália, EUA e Canadá, aliás, são pioneiros na criação de diretrizes de acessibilidade via webutilizando parâmetros amplamente recomendados pelo consórcio internacional W3, responsável pela padronização da Rede Mundial de Computadores.
“Muitas pessoas associam a acessibilidade com sites feios, com poucos recursos e mais caros. Não é verdade”, afirma Fernanda Hoffman Lobato, coordenadora de acessibilidade do Governo Eletrônico, um programa do governo federal brasileiro que pretende levar o conceito de democracia para o acesso à informação. Ela acredita que sites acessíveis tem demonstrado que são mais fáceis de usar, mais leves e, portanto, tem um retorno maior que sites inacessíveis, tanto do ponto de vista financeiro quanto de satisfação do cidadão.
No Brasil, cerca de 14,5% dos habitantes possuem algum tipo de deficiência, segundo o IBGE. Dentre eles, menos de 1% possui emprego formal, 27% vivem em pobreza extrema e 53% são pobres. De acordo com a coordenadora, as tecnologias digitais, quando acessíveis, são uma forma de inclusão social, nas quais os portadores de deficiência podem interagir, trabalhar e aprender em total igualdade com as demais.
Fernanda Lobato afirma ser possível desenvolver projetos 100% universais, apesar do desafio. O maior empecilho, diz, são a falta de conhecimento e o fato de existir poucas pessoas qualificadas.
Design inclusivo e impacto social
Um exemplo de projeto de design inclusivo é o E-Cidadania, encabeçado por Maria Cecília Baranauskas e Maria Cecília Martins, coordenadoras associadas do Núcleo de Informática aplicado à Educação (Nied) da Unicamp. O projeto usa metodologia desenvolvida nos países escandinavos para inovações no ambiente de fábrica, e semiótica organizacional, que explora o uso de signos e seus efeitos em práticas sociais, para permitir a interação de usuários com diferentes necessidades, interesses e competências.
A pesquisa de Baranauskas tenta articular o design universal ao chamado design participativo – que lida com um conjunto homogêneo de usuários, em geral no mundo do trabalho – para tratar a diversidade de competências de potenciais usuários de tecnologias de informação e comunicação no seu cotidiano. “O objetivo é promover o acesso participativo de todo cidadão ao conhecimento gerado pela formação de redes sociais na web e, portanto, o exercício da cidadania”, comenta Baranauskas, que é também professora titular do Instituto de Computação da Unicamp. Em sua pesquisa ela tem estudado práticas participativas de design para criar interfaces de usuário de sistemas que sejam para todos, isto é, que não discriminem aqueles com diferentes possibilidades de interação. “Os novos modelos de design propostos pretendem sustentar a constituição de redes sociais de e-cidadania, criando uma cultura digital que respeite as diferenças, entre as quais as de pessoas com deficiências e aqueles não alfabetizados digitalmente”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, o sistema permitirá a sistematização, difusão e compartilhamento de conhecimento a partir da constituição dessa rede, na qual seus usuários poderão compartilhar produtos e serviços, idéias e eventos sociais de suas comunidades de forma autônoma e inclusiva. “Considero que a inclusão digital, se levar em conta a acessibilidade, vai ser uma das principais portas para o mercado de trabalho para essas pessoas.”, prevê Fernanda Lobato.

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“Abra o seu jornal em qualquer dia da semana e encontrará uma notícia que em alguma parte do mundo alguém foi detido, torturado ou executado, porque as suas opiniões ou religião são inaceitáveis para o governo do seu país”. Hoje, a frase acima, publicada em 1961 no diário inglês The Observer por Peter Benenson – responsável por uma das maiores campanhas pelos direitos humanos mundiais e fundador da ONG Anistia Internacional –, ainda faz sentido. Os problemas de intransigência talvez sejam até mais complexos atualmente do que há 48 anos, quando o artigo “The forgotten prisoners” foi publicado. Na época, a maioria dos casos de violação dos direitos humanos parecia acontecer em governos ditatoriais, ou então atrás da “cortina de ferro”, alusão aos países alinhados com a finada União Soviética e monitorados pela Helsink Watch, predecessora do Human Rights Watch. Naqueles tempos, jamais se imaginaria que países tidos como “baluartes da liberdade” brincariam com o direito internacional criando limbos jurídicos ou justificando a tortura, contrariando um documento que visa proteger o ser humano na totalidade de suas liberdades, independente de fronteiras: a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A Declaração, que contou com a aprovação unânime dos países representados na Organização das Nações Unidas, foi ratificada oficialmente pela ONU em 1948 e serviu de base para dois tratados internacionais: o “Tratado Internacional dos Direitos Civis e Políticos” e o “Tratado Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais” (ambos de 1966). “A Declaração é um momento civilizatório sem precedentes, porque os sentimentos de humanidade, e superação daquilo que diminuía o gênero humano, encontra nos trinta artigos ali descritos um avanço que consolida, em nível global, o que outros documentos começaram ao longo da história”, avalia José Gregori. Gregori atualmente é Secretário Especial dos Direitos Humanos da cidade de São Paulo e foi ministro da Justiça durante o mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Para entender a amplitude do avanço da Declaração, que completou sessenta anos em dezembro de 2008, é preciso pensar em como era o mundo há sessenta anos atrás. “Não havia uma ‘ordem mundial’. Isso só aconteceu no período pós Segunda Guerra, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU). E a Declaração é um documento particularmente especial, pois partiu de parâmetros universais para servir de baliza para os direitos de todos os seres humanos, igualitariamente”, analisa Jayme Benvenuto, que é professor de direito internacional da Universidade Católica de Pernambuco. Ele explica que os tratados, apesar de não terem a forma de leis, foram incorporados às constituições e legislações locais de vários países, e servem de instrumentos para mobilizar as pessoas, em todo o mundo, a questionarem os abusos sofridos e buscarem seus direitos. “Muitas vezes, como aconteceu no Brasil durante a ditadura militar, a lei consolida o autoritarismo de um regime”, lembra Gregori, “e o jeito encontrado para resistir são os direitos humanos, respaldados por um documento que, modernamente, é consenso mundial”, complementa.
Dois tratados, um só objetivo
A inspiração por trás dos dois tratados oriundos da Declaração Universal dos Direitos Humanos são diferentes, embora tenham o mesmo objetivo. De um lado o “Tratado Internacional dos Direitos Civis e Políticos”, chamado de primeira geração ou de direito individual. Ele parte do conceito liberal de liberdade como direito natural do homem, e onde as intervenções do Estado de maneira arbitrária e desmedida precisam ser limitadas garantindo a livre iniciativa e a igual representação política. “ Os direitos civis e políticos são aqueles que o homem tem perante o governo, existentes, em regra, para resguardar o cidadão dos abusos cometidos pelo ente estatal”, explica Ricardo Castilho, professor e diretor da Escola Paulista de Direito.
Seu complemento é o “Tratado Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais”, também chamado de direitos de segunda geração ou de direitos coletivos, baseado na herança do pensamento social democrata europeu. Para essa corrente de pensamento, o Estado estaria ligado à ascensão social do cidadão e, portanto, deve-se agir para gerar opções e controlar desníveis que possam distanciar os cidadãos ou grupos sociais de sua representavidade e, consequentemente, da sua liberdade. “ Os direitos econômicos, sociais e culturais são aqueles que visam a promover um nível mínimo, material e imaterial, de vida digna para os indivíduos, de maneira a suprir as necessidades básicas gerais”, completa Castilho. A amplitude dos direitos resguardados por esses dois tratados é chamado de liberdades fundamentais. “A diferença cabal existente entre os dois pactos identifica-se com a própria diversidade da natureza dos seus objetos”, finaliza.
“Os dois tratados não se excluem. São portas de entrada diferentes para o mesmo tema”, afirma Clodoaldo Meneguello Cardoso, professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (Unesp-Bauru) e coordenador do Observatório de Educação em Direitos Humanos da mesma universidade. Para ele, as diferenças aparecem quando se discute legislação. “Os direitos de primeira geração parecem estar mais avançados nesse sentido. Possuem metodologias claras para categorizar as violações e punir os indivíduos responsáveis, como ditadores, por exemplo”, avalia. Já os direitos de segunda geração, explica Cardoso, não possuem leis gerais aplicáveis igualmente em qualquer lugar, e sim modelos adaptáveis. Entretanto, têm maior articulação social, principalmente no que diz respeito ao combate à pobreza – a exemplo da Bolsa Família, modelo brasileiro exportado para outros países, ou os bancos de microcrédito, projeto trazido da Índia –, apesar da reticência de diversos governos em todo o mundo. Avaliando essa questão, Benvenuto critica a visão utilitarista dos governos: “para consolidar os direitos coletivos é necessário investimento. No caso dos direitos civis e públicos a implantação se dá por renúncia: renuncia-se à tortura; às execuções sumárias; e à perseguição política, por exemplo”.
Para Castilho, “a despeito das diferenças conceituais entre os objetos de ambos os pactos, é de se ressaltar a impossibilidade de pensarmos cada um deles de forma isolada”. Já Cardoso, lembra que, em 1993, a Declaração de Viena e o Programa de Ações da Conferência Mundial sobre Direitos Humanos insistiu no diálogo e na interdependência dos dois planos: “não pode haver preconceito de qualquer um dois lados da questão. É necessário entender essa articulação entre ambos para melhor atender ao cidadão”, diz o pesquisador.
No âmbito internacional essas articulações e aplicações de leis, sanções, sugestões de projetos ou ações, são feitas pelos órgãos como as comissões da ONU, Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelo Tribunal Penal Internacional a partir de denúncias dos indivíduos, organizações, autoridades ou da mídia de todo o mundo. No Brasil a responsável pela questão é Secretaria Especial de Direitos Humanos, com status de ministério, criada em 2003 em substituição às antigas Secretaria de Estado dos Direitos Humanos (SEDH), de 1999, e Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SNDH), de 1997. Hoje, todos os estados brasileiros contam com secretarias estaduais ou programas estaduais de DH e várias cidades, a exemplo da cidade de São Paulo, também possuem as secretarias municipais. Em um horizonte próximo, existe até a possibilidade da criação efetiva do Ministério de Direitos Humanos. Para Benvenuto, “isso significaria um maior poder de articulação em âmbito nacional e internacional além de um aumento orçamentário necessário para instaurar políticas duradouras”.
Alfabetização cívica
“A idéia dos direitos humanos é transmissível. É necessário contagiar as pessoas”, com essa ênfase José Gregori explicita o valor dos tratados e declarações que buscam, também, tornar acessíveis às pessoas informações sobre quais são seus direitos e como comunicar às outras pessoas e autoridades os abusos desses direitos. “No Brasil existe um grande avanço em termos formais, as pessoas estão buscando seus direitos através de juizados, da mídia, das secretarias de direitos humanos federal, estaduais e municipais”, conta o professor da Católica de Pernambuco. Ele também ressalta que os principais problemas no Brasil, atualmente, são as execuções sumárias, pelos grupos de extermínio e os abusos de autoridade. Em sua avaliação, resquícios, de alguma forma, da ditadura militar. O relatório de 2009 da Human Rights Watch, adiciona a essa lista as péssimas condições das cadeias, trabalho escravo e conflitos pela terra.
“Já foi mais sério”, ressalta Roberto Monte. “Antes essas coisas ocorriam e as autoridades diziam que não existia esse tipo de problema. Hoje em dia, houve um avanço: as autoridades admitem publicamente que ocorre”. Monte, que é coordenador do projeto Direitos Humanos na Internet (DHnet) sabe disso na prática. Seu companheiro de atividades no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP) no Rio Grande do Norte foi assassinado na época que denunciava a ação de grupos de extermínio que tinha participação de policiais militares da região de Natal-RN. “Na noite do velório ficamos disparando emails para autoridades, secretarias de direitos humanos e jornalistas. Três dias depois, uma equipe da maior rede de televisão do país foi para Natal preparar uma reportagem para o horário nobre”. Desde então, Monte focou sua atuação na internet, montando um portal que tenta articular as iniciativas de defesas dos direitos humanos em todo o país. Seu projeto ganhou, em 2007, o Prêmio Direitos Humanos da SEDH. “Iniciativas na área de educação e de democratização da informática contribuem para o aumento dos dígitos” diz, referendo-se ao número de pessoas e lideranças que lutam pelo respeito aos direitos humanos. Hoje o DHnet serve de exemplo para projetos similares em Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau.
“É necessário que a população se manifeste contra abusos e a imprensa livre é importante para que essas denúncias cheguem à sociedade”, diz Gregori. Em 1961, a campanha iniciada pela Anistia contou com algumas dezenas de pessoas. Hoje a ONG conta com 2,2 milhões de colaboradores em 150 países. É um exemplo da união de interesses de cidadãos comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa que denunciam os abusos através de uma mídia livre, articulando assim uma rede de atores em uníssono por valores universais. Benenson, na época, foi inspirado pela prisão sumária de dois estudantes portugueses que, em pleno regime do ditador Salazar, brindavam a liberdade numa mesa de bar. Em suas próprias palavras: “o leitor sente um desagradável sensação de impotência. Mas, se esses sentimentos de rejeição, que experimentam pessoas de todo o mundo, pudessem juntar-se numa ação comum, poderia ser algo eficaz”.
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